Antes de 1959: quando a igreja ainda era um grupo
A história da Igreja Adventista do Sétimo Dia da Penha não começa com a construção de um templo, nem com uma cerimônia oficial de organização. Ela nasce antes disso, na experiência cotidiana de famílias adventistas que viviam na região leste de São Paulo e decidiram criar, no próprio bairro, um lugar para estudar a Bíblia, realizar a Escola Sabatina e manter a vida religiosa sem precisar se deslocar constantemente para outras congregações.
Os documentos reunidos mostram dois marcos que precisam ser compreendidos separadamente: o surgimento espontâneo do núcleo adventista da Penha, durante a década de 1950, e sua organização institucional, em 1959. Essa distinção permite conciliar as memórias dos pioneiros com os registros formais da denominação.
Na década de 1950, a Penha já era um bairro consolidado da zona leste paulistana. Entre seus moradores estavam adventistas que pertenciam a congregações mais antigas das proximidades, especialmente Vila Matilde e Belém. À medida que mais famílias adventistas passaram a morar na Penha, surgiu a necessidade prática de reunir-se mais perto de casa.
Os primeiros encontros eram realizados de maneira simples: em casas, espaços emprestados e salas alugadas. Um dos locais lembrados com maior precisão ficava nas proximidades do conhecido Big Ben da Penha, na região central do bairro. Ali aconteciam estudos bíblicos e reuniões da Escola Sabatina.
“O grupo era na Penha de França, próximo ao Big Ben da Penha. Ficava num prédio ali, e nós frequentávamos uma sala lá em cima. E era muito agradável e tinha muitos irmãos adventistas.” Nilva da Silva Oliveira
Nilva conta que, em 1957, ainda criança, foi convidada por vizinhos adventistas para participar das reuniões. Sua memória ajuda a estabelecer que a comunidade já funcionava antes de sua organização oficial. Aos poucos, essas reuniões criaram identidade comunitária: famílias passaram a se conhecer, crianças cresceram juntas, novos interessados foram convidados e formou-se uma rede religiosa suficientemente estável para justificar o reconhecimento oficial daquele núcleo.
O Grupo Penha de França entra para os registros oficiais
O primeiro grande marco documental ocorre em 1959. Naquele ano, o núcleo adventista passou a ser reconhecido oficialmente como Grupo Penha de França. O endereço registrado era Rua da Penha, 493, 2º andar.
O reconhecimento não significava que a história estivesse começando naquele momento. Significava que um movimento que já existia havia alcançado organização e estabilidade suficientes para ser reconhecido institucionalmente.
A tradição oral aponta reuniões desde meados da década de 1950 e indica que, em 1958, o grupo já era ativo, inclusive com Desbravadores e programas evangelísticos. A documentação registra 1959 como o ano de organização do grupo. Em vez de se contradizerem, as fontes retratam fases diferentes de um mesmo processo: primeiro surgiu a comunidade; depois veio a estrutura institucional.
Conferências e expansão
O ano de 1958 foi um marco para a organização do grupo, consolidada em 1959. Séries evangelísticas, divulgação no bairro e a formalização do Clube de Desbravadores reuniram crianças, jovens e adultos em torno de um propósito comum.
Em setembro de 1959, teve início no bairro uma série de conferências públicas conduzida pelo pastor Elias Freitas. A programação se estendeu até dezembro e foi concluída pelo pastor Enéas Simões. Ainda naquele ano ocorreu o reconhecimento oficial do Grupo Penha de França.
No primeiro sábado de 1960, o grupo já reconhecido oficialmente reunia-se no salão da Rua da Penha, 493, segundo andar. O registro em atas históricas aponta 166 pessoas frequentando os cultos naquela época — uma expansão expressiva para uma comunidade que poucos anos antes se reunia de maneira informal.
De grupo a Igreja Organizada
Dois anos após o reconhecimento como grupo ocorreu outro passo decisivo. Em 2 de setembro de 1961, a comunidade deixou formalmente a condição de grupo e passou a ser reconhecida como Igreja Adventista do Sétimo Dia da Penha.
O sermão da cerimônia de organização foi apresentado pelo pastor Osvaldo Azevedo. Na ocasião, foram indicados para a administração da nova igreja o pastor Antonio Jimenez, Antonio Daveli e Lucila Roseto Botaro.
Também foi constituída uma comissão para escolha dos líderes locais, formada por pastor Antonio Jimenez, Armando dos Santos, Lucila Roseto Botaro, Antonio Daveli, Alfredo Chavier, Judith Martins e Reinaldo Teixeira.
Uma igreja organizada, mas ainda sem templo próprio
Apesar de agora ser oficialmente uma igreja, a congregação continuava funcionando em espaço alugado. O local não possuía estrutura adequada para determinados ritos, principalmente batismos e casamentos. Nessas ocasiões, a comunidade recorria à Igreja Adventista de Vila Matilde.
“Todas as pessoas foram ao meu batismo que aconteceu na Igreja da Vila Matilde, foi um dia muito feliz.” Vanda Campos Fava
A decisão de comprar o terreno
O sonho começou a assumir forma concreta em 21 de março de 1964. Naquela data foi realizada uma comissão especificamente para discutir a compra de um terreno destinado à construção da igreja.
O imóvel escolhido media 17 metros por 25 metros e estava localizado na Rua Maria Teresa Assunção, 45, na Penha. Até então, a história da igreja era marcada por salas alugadas e pela dependência de outras congregações. A aquisição do terreno significava criar raízes físicas no bairro.
A mudança para a Rua Maria Teresa Assunção
A construção avançou rapidamente o suficiente para permitir que, em dezembro de 1965, a congregação deixasse definitivamente o salão da Rua da Penha, 493 e passasse a reunir-se no novo endereço: Rua Maria Teresa Assunção, 45 - Penha.
“Depois no ano de 1965 mudamos para a nova igreja. Eles construíram no terreno a parte de baixo e nós já começamos a frequentar ali.” Nilva Oliveira
O depoimento mostra que a mudança aconteceu enquanto a construção ainda se desenvolvia: a parte inferior já permitia as reuniões da comunidade.
Evangelismo como marca da comunidade
Os relatos sobre as décadas iniciais descrevem uma igreja fortemente voltada para atividades evangelísticas, com participação marcante dos jovens.
Nilva Oliveira lembra de uma ação denominada “Folhetão”, uma mobilização em que adultos e crianças saíam para distribuir literatura religiosa sobre a volta de Jesus, convidando moradores para cultos e estudos bíblicos.
“A gente saía para entregar os folhetos para as pessoas. Todos participavam, os adultos e as crianças, era um dia festivo. E depois, voltávamos para a igreja para contar os testemunhos.” Nilva Oliveira
Também foram realizadas várias conferências públicas. Outra mobilização citada foi um congresso ligado à Voz da Profecia e ao programa Fé para Hoje, com participação do pastor Alcides Campolongo. Segundo os registros, durante o encontro ele mencionou Josué 14:12 como mensagem de incentivo ao trabalho missionário da comunidade.
A enchente que atingiu a igreja
Quatro anos depois da mudança para a nova sede, a comunidade enfrentaria um dos episódios mais difíceis de sua história. Em 23 de abril de 1969, uma grande enchente atingiu a Igreja da Penha e causou danos à estrutura. Arquivos, impressos e materiais da secretaria e do Clube de Desbravadores também foram destruídos.
“Foram momentos muito tristes, mas o clube logo se reergueu com a graça de Deus.” Isaac Teixeira
A dimensão humana daquele episódio reaparece nas lembranças de Shirley R. Araujo. Ela recorda que, repetidas vezes, ia para a igreja durante as chuvas a fim de ajudar a salvar os materiais.
“Quantas vezes meu pai ia me buscar, porque eu via a chuva e ia pra igreja ajudar, eu estava com água acima da cintura.” Shirley R. Araujo
Segundo sua lembrança, nas proximidades existira uma lagoa e havia um curso d'água que transbordava quando chovia. Para Shirley, arquivos podiam ser perdidos e materiais destruídos, mas os membros sempre retornavam para reconstruir: havia muita união.
A vida da igreja além dos cultos
Os depoimentos ajudam a reconstruir como era a vida social da comunidade. Nos primeiros tempos, quando ainda não havia toda a estrutura física que surgiria posteriormente, atividades sociais eram realizadas nas casas dos próprios membros, e cada família levava pratos de comida para passar os sábados juntos.
Quando a programação necessitava de espaço maior, o grupo utilizava locais da comunidade, como o anfiteatro do Estadual da Penha e a Biblioteca da Penha. Casas, escolas e espaços públicos tornavam-se extensões da vida comunitária.
“A igreja não é o prédio, são as pessoas que nela estão.” Shirley R. Araujo
Desbravadores e novas gerações
As fotografias históricas preservadas mostram que crianças e jovens tiveram presença marcante na trajetória da Penha. Uniformes, passeios, grupos de jovens e atividades infantis registram uma igreja preocupada em criar vínculos com as novas gerações.
Shirley lembra que trabalhou inicialmente em um departamento chamado Evangelismo Infantil, numa época em que ainda não existia o Clube de Aventureiros. Posteriormente, dedicou-se também ao Clube de Aventureiros Falcão Real Júnior, que começou em 1991 com 32 crianças. Em 1995, Shirley também assumiu um departamento denominado Ministério da Mulher.
Celebrando 30 anos como Igreja Organizada
Em 7 de setembro de 1991, a Igreja Adventista do Sétimo Dia da Penha celebrou 30 anos de sua organização como igreja. A programação festiva reuniu membros, amigos e convidados em um momento de gratidão a Deus e reconhecimento pela trajetória construída ao longo de três décadas.
A celebração marcou não apenas o aniversário institucional, mas também a lembrança de conquistas e da dedicação de pessoas que contribuíram para a construção e o fortalecimento da Igreja Adventista do Sétimo Dia da Penha.
A Igreja da Penha: uma história que continua
Em 2026, a Igreja Adventista do Sétimo Dia da Penha permanece estabelecida na Rua Maria Teresa Assunção, 45, endereço que passou a ocupar em dezembro de 1965. O pastor Geovanne Martins aparece nos registros do arquivo histórico como o atual pastor da igreja em 2026.
Mais de seis décadas após a organização da igreja, permanece viva a memória daqueles que fizeram e continuam fazendo parte dessa história. A trajetória da IASD Penha é marcada pela fé, pela dedicação de seus membros e pelo compromisso de cada geração em preservar e dar continuidade a esse legado.
Fontes utilizadas na reconstrução histórica
Documentos institucionais
Atas e documentos impressos do arquivo da Igreja Adventista do Sétimo Dia da Penha.
Arquivos pessoais
Eliana Barros; Vanda Campos Fava; Magdalena Campos Fava (in memoriam).
Depoimentos
Nilva da Silva Oliveira; Shirley R. Araújo; Isaac Teixeira; Vanda Campos Fava.
Fontes na internet
Associação Paulista Leste — Expansão patrimonial; vídeos históricos da Associação Paulista Leste.
Pastores que fizeram parte da história da IASD Penha
- Pr. Enéas Simões
- Pr. Antônio Jimenez
- Pr. Luiz Gianini
- Pr. Benedito Coelho de Andrade
- Pr. Lázaro Jovino da Conceição
- Pr. Afrânio Feitosa
- Pr. Oswaldo Felix
- Pr. David Marski
- Pr. José Pereira dos Santos
- Pr. Fernando Luiz Antal
- Pr. Edson Rosa
- Pr. Josemi Oliveira
- Pr. Antônio Junqueira
- Pr. Judson Castro Perez
- Pr. Aguinaldo Mozart da Silva Alves
- Pr. Eliezer Ramos
- Pr. Elimar Zillo
- Pr. Wilson Ferreira Guimarães
- Pr. João Paulo Beraldinelli
- Pr. Geovanne Martins — atual pastor em 2026